sexta-feira, 27 de abril de 2012

Carne

Luz trepidante, pedaço de telha, janela sem cortina, metade de sonho, vidro quebrado, cor desbotada, barulho constante, letras misturadas, página pulada, onda doce, espera amarga, plano curvo, traço vermelho, existência oculta, equívoco sofrido, rocha artificial, flor distante, número repetido, cadarço desamarrado, queda.

Ele padece. Sofre por dezesseis longos anos uma vã existência. Não há borrachas, não há correções. Há dor. Há pensamento longe. Há frágeis veias em carcaça endurecida. Música de uma nota só, uma nota só. Ele decora o giro do tempo, se afoga no ciclo, engasga com o sangue dos ponteiros, repetidos e infinitos.

Ele para. Reflete. Reflete e assim continua. Ele esconde seu tesouro, roubado de um tolo. Pobre tolo que rouba a si mesmo. Os ombros já cansados de carregar o mundo agüentam mais outros vários mundos. Ele absorve. Ele engole o sabor da prata, pintado e vendido como ouro. Ele se emociona, ele teme, ele é humano.

Ele tem o seu próprio esgoto. Alimenta-se de uma pouca luz que deixa entrar por vezes. Ele corre, mas não deve nem saber de onde veio. Para onde ele vai, ele não sabe. Ele tem desejos e lamúrias, sonhos e úlceras, lágrimas e entranhas. Ele se embriaga na falta de respeito alheio, curte a ressaca. Ele não vomita mazelas, ele sorri.

Ele é utópico. Ele é servo de sua covardia e senhor de sua verbalização. Ele é lembrança e memórias. É parte existente nas páginas dos diários mentais de algumas pessoas. Ele é o orador da conquista na escravidão da derrota. Ele é tanta coisa estranha e mórbida, por vezes. Ele é misteriosa força que atua tanto para as nuvens como para o chão. Ele é só isso, apenas isso. A ambigüidade fala por si só.

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